12-11-2002
Tello: "Quero mais títulos"

 

Na terceira época de "leão" ao peito, Rodrigo Tello quer "continuar a mostrar qualidades" para vingar definitivamente em Portugal. As lesões musculares é que não abandonam o chileno que, depois de se "adaptar às ideias" pretendidas por Bölöni, teve de voltar a parar. Aos 23 anos o esquerdino, medalha de bronze nos Olímpicos de Sidney e outrora estrela "cintilante" do campeonato do Chile, não duvida que o Sporting vai lutar até ao fim para "conquistar o bi-campeonato". De uma coisa tem a certeza: "quero continuar a coleccionar títulos".

Sporting.pt - As dores sentidas na coxa esquerda (mialgias) acabaram por confirmar os piores cenários. Percebeu logo a gravidade da lesão?
Tello - Não. Abandonei o treino pois ressenti-me das dores, o músculo não estava normal, e preferi parar antes que ficasse pior. Estive em tratamento com o fisioterapeuta Rodolfo Moura e acabei por não recuperar para o jogo com o Gil Vicente. No estágio de La Toja, no jogo com o Pontevedra tinha passado por uma experiência semelhante, pois também senti uma dor repentina. Agora foi uma dor mais forte pois senti todo o músculo contraído.

Sporting.pt
- A lesão muscular de que fala, sofrida no estágio de La Toja, deixou-o afastado da competição durante um mês. Ressentiu-se dessa lesão ou é outro tipo de condicionalismo físico?
T. - Penso que existem diferenças. No estágio na Galiza foi como se uma pedra atingisse a coxa e prendesse o músculo parcialmente. Agora senti todo o músculo a apertar, as dores são maiores, mas acredito que poderei recuperar mais rapidamente. Talvez regresse à competição rapidamente.

Sporting.pt - Ficou de fora do jogo com o Gil Vicente, mas essa ausência terá sido benéfica, pois poderia ter agravado a lesão?
T. - O exemplo máximo disso surgiu no treino onde voltei a sentir que não estava bem. Estas coisas aconteceram no momento menos oportuno. Estava a jogar e adaptar-me às ideias pretendidas pelo treinador. Tenho que ter paciência, manter a cabeça tranquila, para tentar recuperar o mais rapidamente possível.

Sporting.pt
- Este impedimento surge numa má altura, pois estava a jogar regularmente e tinha conquistado o lugar na equipa. Agora vai ter de entrar outra vez na "luta" com o Rui Jorge?
T. - É uma "luta" salutar, perfeitamente normal, pois estamos os dois a trabalhar para integrar o "onze" titular. Isto é o futebol. No início do campeonato ele foi expulso contra o Varzim, surgiu a oportunidade de jogar e eu aproveitei-a. Agora que estou lesionado acredito que acontecerá seguramente o inverso. De qualquer forma quando chega o momento da competição, os jogadores treinaram bem e disputam a posição e será sempre o treinador a ter a última palavra.

"Sporting procura ainda uma base"

Sporting.pt  - Assistiu da bancada à surpreendente derrota do Sporting frente ao Gil Vicente. Conseguiu encontrar razões para o resultado?
T. - Não sei o que se passou. Sofremos um golo muito cedo, e depois desaproveitámos ocasiões para reduzir, principalmente no lance do "penalty". Existiram erros mas o grupo já os reconheceu. É sempre lamentável perder com uma equipa de menor dimensão, ainda por cima em casa, porque esses pontos irão fazer a diferença nas contas finais do campeonato. Aceita-se melhor um resultado negativo contra um adversário directo à conquista do título nacional, pois frente a equipas menos categorizadas não se pode facilitar.

Sporting.pt - Como explica este início de campeonato tão irregular do Sporting?
T. - Passámos por uma fase difícil no início da competição. Existiram indefinições, contrariedades de alguns jogadores e também algumas lesões que condicionaram o grupo de trabalho. Talvez não tenhamos encontrado ainda a base da equipa e o treinador procura os jogadores mais apropriados para determinadas posições. É preciso ter atenção que as derrotas sofridas foram dilatadas, não foram resultados de diferença mínima. Analisámos o momento após a derrota com o Partizan, e as coisas melhoraram com vitórias mas, com a derrota com o Gil Vicente, a dúvida voltou a persistir.

Sporting.pt 
- Acha que o grupo está mais ou menos fortalecido em relação à época passada? Existem condições para o Sporting renovar o título de campeão nacional?
T. - No sector defensivo não creio que haja muita diferença, pois as saídas foram bem colmatadas. Na intermédia e sector atacante a base da equipa "campeã" está presente, por isso podemos construir uma época de sucessos. Ainda falta muito campeonato, mas seguramente que teremos de lidar com fases de melhor ou menor rendimento, de sorte ou azar, de bons ou maus resultados. Sabemos obviamente que será mais complicado alcançar o bi-campeonato, mas esse é o objectivo máximo da equipa. Espero conseguir mais triunfos individual e colectivamente. Nos últimos anos tenho ganho vários títulos e quero continuar a coleccioná-los.

"Vou continuar a mostrar qualidades"

Sporting.pt  - Qual será o principal adversário do Sporting na luta pelo título?
T. - Talvez o FC Porto. Está a demonstrar que possui um plantel bem mais forte do que no ano passado. É verdade que lideram a prova mas ainda temos dois confrontos com eles e vamos esperar por um mau momento que o adversário possa atravessar.

Sporting.pt - Relembrando a época passada quais as sensações que retém das conquistas do Sporting?
T. - Foi lindo. Principalmente pela envolvência do ambiente quando vencemos o campeonato. Senti uma alegria imensa quando me sagrei campeão pelo Sporting, e como chileno fiquei ainda mais feliz por conseguir triunfar num campeonato estrangeiro. Acho que poucos futebolistas chilenos tiveram essa oportunidade. Lembro-me do Marcelo Salas, Ivan Zamorano e outro compatriota que venceu no México. Ganhar tudo em Portugal foi muito especial. Teria sido muito melhor se tivesse jogado mais, mas penso que quando a equipa precisou de um ou outro elemento todos deram uma boa resposta em prol do colectivo. Penso que esse foi um dos grandes trunfos do sucesso do Sporting.

Sporting.pt - Na partida de Braga marcou o primeiro golo oficial ao serviço do Sporting. Já tinha desesperado por isso?
T. - Não (.risos). Foi um bom golo. Fiquei muito contente, lamentavelmente perdemos o jogo, mas esse golo terá servido também como um voto de confiança para o técnico. Quando um jogador marca um golo pensa imediatamente em alcançar outro, e eu não fujo à regra. Quero marcar mais.

Sporting.pt
- Está na terceira temporada ao serviço do Sporting, mas tarda em impor-se definitivamente em Alvalade. É esta a época da afirmação em Portugal?
T. - Vamos com calma. Quando cheguei ao Sporting vinha de uma fase muita boa da minha carreira, em pouco tempo tinha conquistado grandes objectivos individual e colectivamente, e trazia a ilusão de poder fazer o mesmo. O primeiro ano foi difícil, pois tive problemas físicos e de adaptação ao país. Nos primeiros tempos queria corresponder mas estava cansado, numa forma física muito negativa. Fui pouco utilizado, e por isso na temporada passada abdiquei da Copa América, optando por realizar a pré-época com o grupo de trabalho do Sporting. Melhorei imenso e senti-me mais à vontade na equipa. Joguei mais partidas e com outra comodidade e interacção com os meus companheiros pude demonstrar qualidades. Quero continuar assim.

"Contreras é um grande jogador"

Sporting.pt  - Na época passada chegou a ser utilizado na equipa B. Este ano têm sido outros jogadores a fazer essa rodagem. Que comentário lhe merece esta situação?
T. - Quando o técnico falou comigo para participar nos jogos da equipa B disse-me que seria uma oportunidade de ganhar ritmo, para que quando fosse chamado por ele estivesse em boa forma. Eu sabia que precisava de jogar para recuperar confiança. E nessa época não encarei a decisão como uma despromoção. Tinha saudades de jogar, mas entendo que cada um sente as coisas de maneira diferente. Como é que os jogadores da equipa B se sentirão cada vez que perdem o lugar na equipa para jogadores provenientes da equipa principal? É um ponto de vista, parece uma contradição.

Sporting.pt - A chegada de Contreras aumentou o contingente de sul-americanos no plantel do Sporting. O seu compatriota adaptou-se facilmente ao grupo e a Portugal?
T. - O Pablo já está há cinco anos a jogar na Europa. Não teve quaisquer problemas em integrar-se no Clube. É um grande jogador, já o conhecia da Selecção do Chile, e com a ajuda dos sul-americanos do plantel do Sporting adaptou-se facilmente. Integrou-se na equipa e à medida que os jogos decorriam foi mostrando o seu valor.

Sporting.pt 
- Tem acompanhado o calvário de Hanuch. Acha que existiu um sub-aproveitamento das suas qualidades no Sporting?
T. - O treinador é que poderá responder a isso. Quando terminou o campeonato esteve a treinar, participou em alguns jogos particulares, mas foi emprestado. De qualquer forma foi lamentável que após ter recuperado de uma lesão, se tenha lesionado gravemente no joelho logo no segundo treino. É uma situação terrível para um jogador.
Quando jogava no Chile ouvia falar das suas exibições ao serviço dos argentinos do Independente e dos Estudantes de La Plata. Não tenho dúvidas da sua qualidade, tem uma técnica muito apurada, mas não sei dizer se foi mal aproveitado. As decisões de construir uma equipa passam sempre pelos técnicos.

"Sinto-me opção para os livres"

Sporting.pt - Sente-se melhor a médio atacante ou a defesa-esquerdo?
T. - No Chile e na selecção sempre joguei a lateral, num sistema com três centrais, fazendo todo o corredor. Sempre gostei de jogar recuado, fazendo um vaivém constante pelo flanco. Com quatro defesas, há que ter maiores responsabilidades defensivas, mas tenho uma boa noção táctica de colocação no terreno de jogo. 

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- No início da carreira marcou alguns golos de livre directo, mas no Sporting ainda não se estreou. Sente-se como alternativa para este tipo de lances?
T. - Claro que sim. No Sporting marquei apenas de livre num jogo particular com o Alcanenense. Fiz alguns golos no campeonato chileno e na selecção, mas aqui ainda não tive oportunidade. No final dos treinos fico sempre com alguns jogadores a executar a marcação de livres e se num jogo tiver oportunidade vou tentar concretizá-la.   

Sporting.pt  - Quais as impressões que tem da Academia?
T. - São instalações de primeiro nível. O Sporting pensou bem o seu projecto, tendo em vista o futuro do Clube. Para os jogadores da primeira equipa é um óptimo local para estagiar, enquanto que para alguns jovens do sector da formação é uma segunda casa. 

Sporting.pt 
- Já se vê a jogar no novo Estádio de Alvalade?
T. - É uma nave espacial. Espero poder jogar nesse estádio. Será um privilégio ter a oportunidade de jogar no novo relvado.

Sporting.pt  - Sonha com a possibilidade de ingressar noutra liga europeia?
T. - Sim. Em qualquer profissão é normal que se queira subir de nível em nível.
Tudo depende do trabalho que realizar, pois durante dois anos fui um pouco irregular. Penso apenas no presente. Vou trabalhar bem, pois a época, apesar da lesão, até me começou a correr bem. Neste momento estou bem no Sporting e não tenho preferências, pois ninguém sabe o que pode acontecer no futuro.

"Chile tem de fazer algo de bom em 2006"

Sporting.pt  - A Selecção do Chile passou por momentos de indefinição a nível directivo e de planeamento a meio da fase de apuramento para o Campeonato do Mundo. Já é conhecido o nome do novo seleccionador?
T. - Ainda não. Decorreu há pouco tempo a eleição para a presidência da Federação Chilena de Futebol e dentro de dias deve ficar definido quem ocupará o lugar de seleccionador. Existem nomes, mas ainda não se sabe de nada, pois o novo técnico será contratado tendo em vista a qualificação para o Mundial de 2006. César Vaccia tinha sido chamado para orientar a Selecção, mas apenas temporariamente, devido ao jogo particular que realizámos frente à Turquia. Depois passou a orientar os sub-20 e sub-17 do Chile.

Sporting.pt
- Integrou algumas partidas de qualificação para o último Mundial da Coreia/Japão, mas o Chile acabou por ser a grande desilusão da zona sul-americana. O que se passou?
T - Estivemos muito mal. No primeiro jogo perdemos com a Argentina por 4-1. Passamos por um período em que alcançámos resultados positivos, mas depois os problemas começaram com a renúncia do seleccionador Nelson Acosta e o abandono do corpo directivo da selecção. Estas indefinições criaram bastante instabilidade à equipa nacional e fomos completamente abaixo.

Sporting.pt  - Ambiciona voltar à selecção do Chile?
T. - Obviamente. Já não participei na segunda metade dos jogos de qualificação para o Mundial, pois passaram a ser convocados apenas jogadores que actuavam internamente no Chile. No último particular com a Turquia voltei a ser chamado, tal como os "estrangeiros" Olarra, Contreras e Acuña. Espero regressar às convocatórias. 

Sporting.pt - Após o terceiro lugar nos Jogos Olímpicos de 2000, onde participou, o que é que aconteceu à nova geração chilena?
T. - Foi uma fase muito boa. Quando chegámos ao Chile a comunicação social disse maravilhas da selecção. Falava-se que os jovens jogadores apresentavam muita maturidade, e com o apoio de alguns mais experientes, estava constituída a base da selecção nacional. Da equipa que ganhou a medalha de bronze em Sidney saíram oito ou nove jogadores para a primeira equipa. Depois perdemos no Equador, por 1-0, na fase de qualificação para o Mundial e, para a imprensa, esses mesmos jogadores já não tinham maturidade. Creio que com esta vaga de jovens jogadores, mais o regresso de jogadores importantes, como é o caso do Marcelo Salas, não poderemos perder a oportunidade de nos classificarmos para o próximo Mundial. É a última oportunidade para fazer algo de bom, pois a média de idades rondará os vinte e oito anos.