28-10-2002
Niculae: "Sou um vencedor"

Marius Niculae está de volta e determinado a fazer uma boa época, com o intuito de agradecer o apoio prestado pelos adeptos numa altura difícil da vida. O romeno já não se mostra "receoso", mas sabe que precisa rapidamente de "marcar golos" para ganhar confiança. Consciente da "força do grupo" o jovem avançado não tem dúvidas em afirmar que o plantel verde e branco "está com Bölöni". Não esconde a felicidade pelos títulos da época passada, mas deixa claro que "este ano quero ganhar tudo de novo. Sou um vencedor".

Sporting.pt - Ultrapassou uma fase complicada da sua carreira, mas o regresso ainda não foi o que todos anseiam. O que falta para atingir o nível da época passada?
Niculae
- Acho que estou em melhor forma física e tenho vindo progressivamente a ganhar maior consistência desde o primeiro jogo com o Inter de Milão. Já não estou receoso e possuo mais velocidade e mobilidade. Agora estou bem, preciso é de jogar. Tenho consciência que os adeptos esperam muito de mim e desejam voltar a ver o Niculae da época passada.

Sporting.pt - Tem trabalhado com Bölöni individualmente para ganhar essa consistência física e mobilidade de que fala?
N.
- Sim. Estive muito tempo parado e por isso tornou-se necessário esse tratamento especial. Tenho feito também muito trabalho de pernas no ginásio, acompanhado pelo Rodolfo Moura, para reforçar a zona muscular que foi afectada.

Sporting.pt - Já marcou na Supertaça, mas no Campeonato ainda não fez o gosto ao pé. Torna-se imprescindível marcar um golo para aumentar a moral?
N.
- Claro. Já fiz um golo, mas isso é muito pouco para um jogador que recuperou de uma lesão. Um avançado ganha confiança marcando golos e com uma lesão torna-se ainda mais necessário concretizar as oportunidades. Quero jogar bem e marcar golos. Tenho tido um pouco de azar nas ocasiões, mas espero ultrapassar rapidamente esta situação.

"A moral da equipa baixou após jogo de Milão"

Sporting.pt - Quais os motivos para, à semelhança da temporada transacta, o Sporting ter tido um início "titubeante" na SuperLiga?
N.
- Apesar de tudo, este início do Sporting foi um pouco melhor do que o do ano passado. Saíram alguns jogadores importantes na estrutura do grupo e foi necessário tempo para reformular muita coisa. Depois, faltaram peças influentes, como o João Pinto ou o Jardel, nos primeiros jogos. Também na Liga dos Campeões calhou-nos o Inter de Milão, um adversário muito forte, e esse afastamento levou a que a moral da equipa baixasse profundamente. Resta-nos levantar a cabeça e olhar para os objectivos que temos à frente para ganharmos de novo o Campeonato Nacional.

Sporting.pt - Acha que o grupo deste ano está mais ou menos forte?
N.
- A força do grupo é semelhante à do ano passado. O Phil Babb, o André Cruz e o Hugo Viana saíram, mas essas ausências foram colmatadas com bons valores. Contreras é um bom jogador, o Ronaldo impressionou-me pela ascensão e o Kutuzov tem contribuído muito para a equipa.  

Sporting.pt  - E quem será o principal adversário do Sporting na corrida pela conquista do campeonato nacional?
N.
- Penso que o FC Porto e o Benfica serão os principais adversários. Já vi o Porto pela televisão e pareceu-me ser um grupo muito forte. Têm um meio-campo consistente e na frente existem jogadores com boas capacidades técnicas. O regresso do Jorge Costa deu-lhes mais segurança na defesa. O Benfica também me parece mais forte do que o ano passado.

"A equipa está com Bölöni"

Sporting.pt - Numa entrevista ao diário romeno "ProSport" defendeu Bölöni, desculpabilizando-o dos maus resultados averbados pela equipa. Apesar da renovação do plantel "leonino" a relação sólida mantém-se entre o treinador e o grupo de trabalho do Sporting?
N.
- A equipa está com o treinador. Acho que os resultados da época passada, quando conquistámos tudo em Portugal, serviram para demonstrar a qualidade do seu trabalho. O treinador está enquadrado com a realidade do futebol português, conhece este grupo muito bem e já fala quase tudo em português com os jogadores. Este início, como disse, foi condicionado pelas mudanças na equipa, mas o balneário mantém-se unido.  

S. - Após a sua recuperação, e agora com os regressos de Jardel e João Pinto, está tudo pronto para a reedição do "tridente" demolidor da época passada?
N.
- Se o treinador entender. O futebol é como tudo na vida, em certos momentos estás bem, noutros estás mal, umas vezes jogas outras não jogas.
Não podemos estar sempre no topo. Só os jogadores com moral muito forte não se deixam abater por essas situações.

"Grupo falou abertamente na Jugoslávia"

Sporting.pt - Quais as explicações que encontra para o afastamento do Sporting na Taça UEFA?
N.
- Na primeira mão em Alvalade a moral da equipa estava em baixo. Tínhamos vindo de uma derrota pesada com o Paços de Ferreira e jogámos muito desconcentrados. Senti a indisposição presente no balneário. As coisas não começaram a correr bem e apesar de termos conseguido recuperar cedo a desvantagem não aguentámos o contra-ataque do Partizan. No segundo jogo houve uma conversa franca e aberta entre todos e o grupo deu a resposta que se viu no campo. Mostrámos que a eliminatória esteve sempre ao nosso alcance e só a infelicidade no prolongamento ditou a nossa saída da competição. 

Sporting.pt - Se aquela bola no poste rematada por si, no último minuto do jogo em Belgrado tivesse entrado, o Sporting virava mesmo a eliminatória...
N.
- Foi azar. Rematei de pé direito e a bola acabou por ser desviada ligeiramente pelo corpo de um jugoslavo. Se não tocasse no defensor era golo.

"Imprensa complicou na minha chamada à selecção"

Sporting.pt - Estão reunidas as condições para que a Roménia, depois da desilusão do afastamento do Mundial, possa chegar ao Europeu de Portugal?
N.
- Está um pouco difícil, devido à derrota caseira que tivemos com a Noruega. O próximo jogo é com a Dinamarca e é imperativo vencermos, isto se quisermos chegar ao primeiro lugar do grupo. A nossa equipa manteve a mesma base de jogadores e está rotinada. Vamos ver o que é possível fazer. 

Sporting.pt - Em três jogos de qualificação foi titular apenas no primeiro jogo, com a Bósnia-Herzgovina. Depois o que se passou?
N.
- É normal que o seleccionador nacional opte por jogadores que são titulares nos clubes. Como eu não tenho jogado regularmente neste início de temporada tem sido mais difícil. O seleccionador colocou no "onze" os jogadores que para ele se apresentam em melhor forma física. Apesar disso, joguei com a Bósnia e fui utilizado frente à Noruega. Só no último encontro com o Luxemburgo é que fiquei no banco de suplentes.   

Sporting.pt - Nesse primeiro encontro de apuramento existiram problemas de comunicação entre Bölöni e Iordanescu, derivados da sua chamada à selecção romena. O "mea culpa" que fez desdramatizou o que foi afinal um "falso" problema?
N.
- Apresentei publicamente as minhas desculpas, porque nessa altura estava a comprar uma casa e a escritura foi marcada pelo banco para uma segunda-feira, horas mais tarde do que eu previa. Falei com o seleccionador e disse-lhe que não poderia viajar para a Roménia por esse motivo e que a culpa não era de Laszlo Bölöni. O problema é que a imprensa complicou as coisas e a confusão adensou-se. O técnico nunca teve qualquer culpa. Se não assinasse a escritura nesse dia teria que passar uns tempos num hotel. Cheguei de noite ao estágio da selecção romena, discutimos os nossos pontos de vista mas ficou tudo resolvido. 

"Claques do Sporting são um espectáculo"

Sporting.pt - Quais os motivos para a derrota caseira frente à Noruega?
N.
- O campo estava muito pesado. Todos sabem que a nossa selecção pratica um futebol muito técnico, como o de Portugal, e não conseguiu jogar bem devido às condições atmosféricas. A Noruega foi mais consistente, tem jogadores com outra estatura, deu-se melhor com o estado do terreno e acabou por vencer com um golo perto do final.  

Sporting.pt - O que espera do Euro 2004 em Portugal?
N.
- Desejo muito que a Roménia se qualifique. À margem disso, penso que será uma competição muito forte e a selecção portuguesa tentará fazer uma boa prova, porque é o anfitrião, e também porque necessita de apagar a má imagem deixada no Mundial da Coreia/Japão.

Sporting.pt - Acha que nessa altura ainda estará em Portugal de "leão" ao peito?
N.
- Acredito que sim, pois quero jogar no novo estádio de Alvalade (.risos). O Sporting está em transformação e gosto muito do Clube. As claques do Sporting impressionam-me, são um espectáculo, estão sempre a cantar e isso dá muita moral à equipa. Quando o Sporting perde eles continuam a apoiar-nos, na Roménia se perdemos um jogo começam logo a assobiar.

"Quero ganhar mais títulos"

Sporting.pt - O campeonato italiano é que mais lhe seduz?
N.
- Numa entrevista que dei na Roménia disse que o meu sonho seria jogar em Itália ou em Espanha, pois são dois campeonatos muito fortes onde estão os melhores jogadores do Mundo.

Sporting.pt - Apesar do infortúnio da época passada qual a sensação de, no ano de estreia com a camisola do Sporting, ter ficado ligado à história do Clube ao ganhar todos os títulos nacionais?
N.
- Uma felicidade enorme. Mas este ano quero ganhar tudo de novo. Sou um vencedor, no Dínamo também ganhei o Campeonato e a Taça da Roménia, por isso estou habituado a conviver com títulos.  

Sporting.pt - Quais os objectivos para esta época?
N.
- Primeiro espero ter saúde para realizar uma boa época e que não sofra mais nenhuma lesão. Espero jogar muitos jogos, marcar golos e ganhar novamente pelo Sporting pelo menos um troféu.

A integração da Roménia na UE
"Seria bem melhor que fosse já em 2004"

Sporting.pt - No início da época falou do bom entendimento com Kutuzov no campo e no balneário. Uma cumplicidade tão notória que até utilizam botas iguais...
N.
- Por acaso até já troquei de botas, mas chegámos a jogar com botas iguais. A verdade é que gosto mais das que utilizei no ano passado. Só tenho mais um par, são cor de laranja, porque deixaram de fazer o modelo e por isso essas servem apenas para jogar.  

Sporting.pt - De onde saiu a alcunha de "bulldozer"?
N.
- Os jornais romenos começaram a chamar-me isso porque pratiquei judo e num jogo frente ao Steaua, num terreno pesado, derrubei muitos adversários. Sou também alcunhado de "flecha" mas só por alguns jogadores.

Sporting.pt - Que comentário lhe merece o adiamento da entrada da Roménia na União Europeia para 2007?
N.
- O país está no caminho certo e resta-nos esperar. Ano após ano a economia romena tem subido muito e as coisas estão um pouco melhores para os cidadãos. É preciso ter a noção que a percentagem da classe média é ainda muito baixa. Há muita gente com pouco dinheiro e desde há uma década assiste-se a uma elevada taxa de emigração. Mesmo assim há um melhor saneamento económico e a crise está a ser ultrapassada. Dou como exemplo a reforma dos serviços policiais em Bucareste, que após muitos anos a utilizar viaturas velhas recebeu há bem pouco tempo novos automóveis.

Sporting.pt - Com a adesão à União Europeia também os jogadores romenos, como o Niculae, beneficiarão do estatuto de comunitários.
N.
- Se a integração acontecesse já em 2004 seria bem melhor para mim, mas como sou um jogador jovem vou ser paciente. São mais três anos de espera, como extra-comunitário, e como é certo que me irei manter a jogar na Europa terei de aguardar pela resolução da entrada na União Europeia.